Com 24 anos de transmissão, Rádio Heliópolis engaja e transforma comunidade da periferia de São Paulo

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Era começo dos anos 2000 quando Reginaldo José Gonçalves recebeu a visita de um policial durante a transmissão de seu programa de rap na Rádio Heliópolis, emissora comunitária da periferia de São Paulo.

“Achei que a rádio ia fechar”, conta ele em entrevista ao Knight Center para Jornalismo nas Américas. “Mas quando abri a porta, o policial estava com uma criança ao lado, disse que tinha encontrado o menino perdido. Ele me perguntou se eu podia anunciar a criança na rádio, eu disse ‘claro!’. Fizemos o anúncio e em cinco minutos a mãe do garoto apareceu na radio pra buscá-lo”, contou o atual administrador financeiro da radio.

Reginaldo disse que anos depois, estava caminhando pelas ruas da comunidade, quando um jovem o chamou pelo o nome.

“Ele me perguntou se eu não o reconhecia, eu disse que não, e ele me contou que era aquele menino perdido de anos atrás, encontrado pela radio.”

No dia 13 de fevereiro, a Unesco celebra o Dia Mundial da Rádio, o que inclui os milhares rádios comunitárias pelo mundo. Até 2015, o Ministério das Comunicações do Brasil concedeu 4.724 outorgas para rádios comunitárias no país.

A Rádio Heliópolis fica no bairro de mesmo nome, e atende aos 200 mil moradores da região.

Fundada em 1992 para atender a necessidade de comunicação e organização dos moradores, as transmissões começaram com autofalantes pendurados em postes – a chamada rádio corneta. “Lembro que um dos autofalantes ficava no campo de futebol que eu jogava bola”, lembra Reginaldo Gonçalves.

Foi assim por cinco anos, até que os primeiros equipamentos foram comprados e a transmissão passou a ser por FM. Reginaldo cresceu com a rádio, e, quando adolescente, conquistou um espaço na programação para apresentar um programa de música com amigos.

“Começamos a fazer muito sucesso, e um dia a diretoria da rádio nos chamou pra uma reunião. Nos disseram que o programa estava comercial demais e que aquele não era o objetivo da rádio. Eu não entendi na época, mas depois comecei a perceber que as pessoas nos procuravam nas ruas pra resolver problemas e pedir orientação. Aí eu entrei mais a fundo no trabalho comunitário. Mudei meus conceitos e passei a pensar no benefício coletivo, que no fundo também traz o benefício individual.”

A programação é temática e em todos os programas é enfatizado o caráter coletivo da emissora. “Anunciamos cachorro, papagaio, criança desaparecida, tudo! Divulgamos também a agenda cultural do dia ou da semana, com opções de programas gratuitos ou de preço acessível”, explica Reginaldo. Há também programas religiosos e informativos.

A legislação brasileira para rádios comunitárias surgiu em 1998. Mas apesar do reconhecimento legal, muitas rádios ainda sofrem com a demora na entrega de outorgas e com as restrições de potência e alcance de transmissão e de formas de financiamento. Por esses motivos, em julho de 2006 a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) decretou o fechamento da Rádio Heliópolis, que só foi reaberta após seis meses de mobilizações. Foi apenas em 2008 que a emissora conseguiu a autorização definitiva para funcionar.

Hoje, com 28 funcionários – todos voluntários – a Rádio Heliópolis ainda tem dificuldades para se manter financeiramente. Mas graças ao apoio da União de Núcleos, Associações e Sociedades de Moradores de Heliópolis e São João Clímaco (UNAS) e de doações, mantém a programação diária.

“Hoje a gente trabalha tranquilo, sem medo de que um dia a polícia vai fechar. Mas, por outro lado, ficamos muito presos à legislação. A lei regulamenta, mas não dá condições da rádio sobreviver”, explica Reginaldo.

“Valorizamos cada dia ter esse meio de comunicação, que é da comunidade e para a comunidade. A gente tem que ocupar esses espaços, esses espaços são nossos”, diz Reginaldo.

Informações: Blog Jornalismo nas Américas

Fonte: Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária – Abraço